Ir ou ficar? Essa lâmina afiada, pequena e ingrata que vive
nos partindo. Sei bem que, do lado de lá, depois dessa porta que me confina, existe todo um
mundo bonito, tentador, mas permaneço presa por minha consciência e meu coração partido que me impedem de girar a chave, de caminhar para longe.
Arrisquei-me, e fui! O ar fresco do início da manhã batia em meu rosto
enquanto eu caminhava, a dúvida era fiel companheira, mas eu queria te ver, te
dizer algumas coisas que ficaram perdidas no passar dos dias, queria te ver para
gotejar nossas lágrimas sofisticadas, nossa solidão habitada. Não consigo me conter a insistência em
cutucar estas feridas rasas.
Não demorou, e te vi, distante. A essa altura eu nem recordava mais o
discurso decorado que fiz para a situação. Somos dados viciados, nossa relação nunca
conseguiria desprender daquilo que poderia ter sido e não foi. Mas sei que o
amor mais sem esperanças é mais iluminado do que essas lacunas que se abrem
dentro de nossos silêncios, nossos dias insones, nossas memórias pregressas.
Pensar no celular apertado pelos dedos suados, nas consequências de uma ligação feita, é melhor do que enfrentar a finitude alheia, as entrelinhas
despercebidas, o cansaço de alguma coisa feita em vão. E além do mais, sou forte, já me
encontrei demais para me deixar levar por qualquer vento de amor, qualquer brisa de verão. Tenho os pés
no chão. Resisto. Paro onde estou e te observo ao longe, distante.
Kamila, parabéns vc escreve muito bem
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